Existem algumas coisas que as pessoas preferem guardar
consigo, mas em algum momento as memórias veem à tona, e porque com ela seria
diferente? Depois do fatídico dia já haviam passado meses, ela não sabia exato quantos,
mas o suficiente para tudo se tornar apenas uma memória ruim, porém necessária.
Há momentos em que as pessoas perdem o controle sobre as coisas, sobre a vida,
e esse era o tipo de coisa necessária para continuar vivendo, ao menos para
ela.
Dani era uma jovem adulta, tinha acabado de sair das
incontáveis loucuras da adolescência, para mergulhar de cabeça em um poço de
lama, a vida adulta. Bom, era assim que ela via as coisas, talvez um pouco
pessimista, mas com tudo que passava em sua cabeça, essa ainda era uma boa
visão geral. Quando jovem não desafiou a vida com suas loucuras, mas sim a
morte; existiam dias em que acordava e não queria levantar, e se a obrigavam a
fazer isso, bom, aquele dia seria apenas um borrão, na mente de todos, Dani
sempre fora impulsiva de forma demasiada, talvez fosse mais impulsiva do que
depressiva, essa era só mais uma vasta conclusão dentre milhões de outras que
passavam em sua cabeça. Existiam dias ruins, mas aquele em especifico fora um
baixo apogeu de seu ano – mesmo
que a frase soe contraditória –,
talvez de sua vida toda até aquele momento especifico.
O final do ano se aproximava e Dani sabia o que isso
significava, pelo menos para ela; em algum momento, alguma coisa se perdeu e
toda aquela baboseira das festas só a deixava mais e mais deprimida. O céu
estava cinza, um vento frio se tornava presente em todas as atividades do dia;
era hora do almoço, o que apenas a irritava mais, pois teria uma hora para se
libertar da fuligem daquela empresa suja onde trabalhava, mas tudo voltaria tão
rápido quanto fora. Alguma coisa além das reclamações cotidianas a incomodava
naquele momento especifico, era como uma agonia incessante. Nos últimos meses,
depois do tal dia as coisas estavam de fato
melhores, menos instáveis, claro que haviam dias de descontrole total, mas já
não eram tantos quanto antes.
Dani voltara do seu horário de almoço com uma áurea cinza
sobre sua cabeça, mas as pessoas ao seu redor estavam atarefadas demais com o
trabalhado e consigo próprias para repararem, isso a irritava, muito. O resto
da tarde passou arrastado, mas quando finalmente seu horário de ir embora
chegou, ela não pensou duas vezes, pegou suas coisas e saiu do prédio o mais
rápido possível , mas o dia ainda não tinha acabado, ela ainda tinha de ir para
a faculdade, então o fez, apressou o passo e chegou mais cedo do que de
costume. Estava cansada, precisava de um café e de um cigarro, não relutou,
comprou seu café predileto, arrancou o maço de cigarros da mochila e acendeu
um. Aquele momento bastava.
Mais tarde quando o sol estava perto de se pôr, Dani pegou
suas coisas e foi para o alto do prédio de comunicação da faculdade, poucas
pessoas sabiam da existência daquele lugar, o dia não estava sendo fácil,
talvez precisasse ficar um tempo só, olhando o pôr do sol, fumando um cigarro
mentolado para colocar as coisas no lugar; quando finalmente venceu aquela
eternidade de escadas e chegou ao topo do prédio, se sentiu aliviada, e se pôs
a observar os últimos raios de sol do dia, algo ainda a incomodava.
A visão era linda, Dani gostava do céu, do sol, das coisas
grandes do universo, ela apenas observava o final do dia quando sentiu uma mão
em seu ombro, se assustou, virou para ver se conhecia o intruso do pôr
do sol, e para sua surpresa era um completo estranho “Desculpa se te assustei.”
Disse ele com um tom sério, Dani apenas o observou com sua melhor feição de
interrogação. “Você sabe que essa área é proibida para os estudantes, não
sabe?” Dani se assustou com a pergunta, mas não meteu os pés pelas mãos e
retrucou “Você é segurança, por um acaso? Porque suas roupas não dizem isso”, o
rapaz sorriu, e se pegou olhando a própria roupa, uma camiseta de banda,
bermuda xadrez e um all star nos pés, e riu “Desculpe, eu só queria puxar
assunto” ele disse com um rosto sincero, Dani fechou as feições e respondeu “Eu
acho que não quero conversar, só preciso colocar as coisas no lugar. Dia
difícil.”, o rapaz nada mais disse durante um tempo, apenas observou o céu que
no momento era tingido por uma cor vermelha com tons de rosa, que talvez o
homem não pudesse recriar.
Depois de um tempo calados o rapaz finalmente quebrou o
silêncio “Se tem alguém que entende de dias difíceis, esse alguém sou eu, sabe
ás vezes e...” Dani o interrompeu abruptamente “Não me venha com uma história
triste, não preciso disso, cara, eu já tenho meu inferno pessoal... A vida é
tão injusta ás vezes, e tudo só piora quando não se tem o controle disso, não
sei ao certo o que está acontecendo comigo hoje, mas de alguma forma me toquei
que há algum tempo atrás, fiz uma merda, bem grande, e sabe o pior? Eu nunca
consegui falar sobre isso, eu comuniquei, mas não contei. Eu não sei bem o que
aconteceu aquele dia, era só mais um dia chato, na minha rotina chata, faltava
menos de uma hora para acabar meu expediente, não sei explicar, minha cabeça
simplesmente falhou, eu pisquei e quando percebi, não conseguia mais me
concentrar em nada, e por algum motivo comecei a me sentir inútil perante tudo,
eu tinha vontade de chorar, mas não tinha força para isso, eu só precisava sair
daquele escritório sem janelas o mais rápido possível, meu estomago doía, meus
pensamentos estavam acelerados, muito mais do que o normal, eu me sentia
sozinha, me sentia vazia, embora eu me sentisse assim a maior parte do tempo,
naquele dia, naquele momento, era algo que estava totalmente fora do meu
controle, eu precisava concertar aquilo, não sabia como, eu precisava sair
dali. Quando finalmente saí, tudo que estava sentido antes, amplificou, era
como uma bomba, eu não sabia o que tava sentindo, só precisava fazer aquilo
passar. Lembrei dos meus comprimidos na bolsa, peguei alguns e tomei, mas
parecia não fazer efeito nenhum, enquanto andava na rua, comecei a pensar que
não queria ir para o trabalho no dia seguinte, tava tudo tão confuso, peguei
mais um punhado de comprimidos e tomei, e de novo, não fez efeito, eu liguei
para a minha mãe e disse que não estava bem, mas eu mal conseguia falar, já no
ônibus vindo pra cá, tomei mais alguns remédios, eu só queria sumir, eu só
queria desaparecer, queria que aquele sentimento fosse embora, e absolutamente
nada adiantava, quando cheguei aqui, presumi que não conseguiria assistir aula
e resolvi ir embora; no ponto enquanto esperava o ônibus, tomei mais um punhado
de remédios, foi quando me dei conta de que estava com sono, cansada, e estava
ruindo, finalmente percebi o que estava fazendo, eu queria morrer. Indo pra
casa, tomei o resto dos comprimidos que tinha comigo; eu queria morrer, mas
precisava viver. Foi quando liguei para meu irmão, eu não conseguia parar de
chorar, meu corpo e minha mente já não estavam trabalhando em harmonia... Dali
pra frente, eu não me lembro muito bem do que aconteceu, quando percebi estava
em casa e tentava vomitar, e nada, eu não queria vomitar, queria morrer, mas
ainda assim precisava viver.” Quando se deu conta, Dani chorava feito uma
criança, o rapaz apenas a olhava sem saber o que fazer ou o que dizer, ela se
acalmou um pouco e continuou a falar “E sabe? Desde então, eu nunca contei pra
ninguém, ou parei pra pensar o que aconteceu aquele dia, as pessoas sabiam o
que eu tinha feito, mas o motivo, ninguém sabia. E sei lá, antes de hoje, e
antes de agora, isso tudo era só uma lembrança ruim e necessária na minha
cabeça, eu nunca tinha revivido, eu nunca tinha pensado sobre como aquele dia
poderia mudar o resto dos meus outros dias.” Dani finalmente parou de falar e
se deu conta que no horizonte já não havia mais sol, apenas escuridão e
estrelas, lindas estrelas. Quanto tempo estava ali? O que estava fazendo? Qual
era a porra do problema dela para simplesmente falar tudo para um estranho que
não dava a mínima? O rapaz olhou para a garota parada em sua frente, segurou
sua mão e a abraçou com tanta urgência como nunca fizera antes, e ela correspondeu
com a mesma intensidade.
Depois de um tempo o rapaz soltou o abraço, olhou nos olhos
mareados de Dani, abaixou e chegou bem perto de uma das orelhas da garota e
sussurrou “Eu sei que a vida pode parecer uma grande porcaria, ás vezes, mas
uma hora tudo se acerta. Eu entendo você, entendo o que fez, e entendo porque
nunca falou disso antes. As coisas vão se acertar” quando parou de falar, o
rapaz segurou seus braços de forma gentil, olhou em seus olhos e lhe beijou a
testa. Trinta segundos depois disso ele saiu andando em direção a porta de
acesso a parte interna do prédio. Dani confusa e perdida apenas gritou “Me
desculpa por isso, não sei o seu nome, nem nad...” e o rapaz já um pouco
distante apenas disse “Não vou dizer meu nome, ou quem eu sou, assim vai
estragar esse momento, só me prometa que vai lembrar disso.” E antes que ela
pudesse ter algum tipo de reação, o jovem saiu pela porta e foi embora.
Depois daquele dia que conversara com o rapaz misterioso no
terraço, toda vez que Dani tinha pensamentos ruins, lembrava dele dizendo que
as coisas iriam se acertar em algum momento. Ela era tão nova, e sofria tanto,
tentara tomar a própria vida tão antes de a vida realmente começar. O futuro a
esperava, o mundo a esperava e talvez tudo ficasse realmente bem em algum
momento.
Nem sempre era fácil, mas Dani continuou vivendo e toda vez que lembrava daquele maldito dia, ela recompunha seus pensamentos e dizia para si própria: É uma memória ruim, porém necessária, eu quis morrer, mas precisava incessantemente viver.
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